4 de maio de 2012

Uma Formatura e Um Amor



Aquele seria mais um dia entediante, mais um domingo daqueles em que se tem preguiça até mesmo de sair da cama, só não podia imaginar que um convite poderia mudar tanta coisa.
Chamo-me Lívia, ou Liv que é como todos os amigos me chamam, tenho 21 anos, moro com meus pais, mas já estou na procura pela minha casa, viver aqui está quase insuportável. Venho de uma família relativamente bem de vida, em questão material nunca me faltou nada, sempre tive tudo que queria, mas não vão logo pensando que sou daquelas riquinhas fúteis e mimadas, na verdade, não sou muito ligada ao dinheiro, eu gosto mesmo é das coisas simples, gosto de sair com os amigos num sábado a tarde, tomar um chop gelado, ir ao parque, ficar em casa lendo, fuçando na internet ou só ouvindo músicas das mais diversas, da clássico ao samba de gafieira, acho que quando nos prendemos em um estilo musical, deixamos de conhecer uma imensidão de opções que nos agradariam, por isso no meu quarto é possível achar CDs de inúmeras bandas conhecidas, de vários gêneros e de outras tantas bandas que a maioria das pessoas jamais ouviram falar.
Há quase 3 anos meu pai e eu não nos falamos, para ele eu sou uma vagabunda, como várias outras que ele vê na rua, o motivo é simples, eu tenho tatuagens, gosto de mulher e não aceito seus caprichos e isso para ele basta para ser vagabunda, para mim ele é o que eu chamo de “atraso da humanidade”, sabe essa pessoas ignorantes, preconceituosas e cheias de rótulos para todos e de querer dar lição de moral, quando na verdade eles não possuem um pingo de moral, pois é, atrasos da humanidade. Minha mãe ao contrário, é um amor de pessoa, não somos do tipo que saem muito juntas e tudo mais, mas quando juntas, temos longas conversas, damos risadas, ela sabe tudo à meu respeito, inclusive que gosto de mulher, disso ela sempre soube, só há um problema nisso tudo, ela vive fora de casa, são inúmeros compromissos sempre “urgentes” que acabaram nos separando, eu á amo e muito, mas não creio que ela trocaria todos seus compromissos sociais para uma tarde fazendo coisas de mãe e filha, gostaria de crêr no contrario, mas já sou grande de mais para acreditar em contos de fadas.
Há aproximadamente 2 anos eu trabalho como tradutora para uma multinacional, eu não me queixo, gosto do meu trabalho, hoje estou no último ano do curso de Letras com foco em tradução, falo fluentemente inglês e francês, além da nossa língua materna, português.
Bom, agora que todos já sabem da minha vida, podemos voltar ao assunto do convite, certo?
Para mim aquele domingo, já havia dado no que tinha que dar, estava pronta para desligar o computador e ir dormir, afinal acordaria cedo amanhã, fui só dar uma olhada no meu facebook, e foi então que vi a mensagem de um amigo: “Hey Liv, tenho um convite para te fazer, me responde assim que puder.”, fiquei curiosa e respondi na hora, mandando também o número novo do meu celular, então fui para cama, e dormi vencida pelo cansaço.
No dia seguinte, fui trabalhar cedinho e a manhã correu normalmente, na hora do almoço recebi uma mensagem do meu amigo: “Liv, vamos numa formatura nesse fim de semana? Será no Palácio, vai ser Luxo gata!!”, como eu não tinha nada em vista para fazer no fim de semana, aceitei sem hesitar, liguei para ele e pedi mais informações sobre a festa, seria a formatura de uma outra faculdade, mas ele e mais uma amiga foram convidados, por serem da comissão de formandos, acertamos todos os detalhes e conforme a semana fosse passando nos falaríamos. Essa semana para mim foi uma correria só, tive que correr atrás de vestido, já que não tinha nenhum para a ocasião e sou um tanto quanto chata para roupas, mas de última hora consegui achar um que me agradasse, lindo, na cor azul marinho, frente única e com um corte lateral na saia, simplesmente lindo, na sexta feira acertamos como faríamos, combinamos que eu o pegaria em casa, por ser caminho e de lá pegaríamos a outra menina com o namorado. E foi assim, sábado foi uma correria só, acordei cedo, tomei café, fui para a academia, voltei, tomei banho, fui para o salão, onde fiquei até ás 19h, voltei para casa comi alguma coisa rápida, escovei os dentes, me troquei e fiz uma maquiagem leve, onde o que chamava mais atenção eram meus lábios com o batom vermelho, minha marca registrada. Saí de casa as 9h, peguei todo mundo e fomos para o local indicado no mapa, que era relativamente longe. Chegamos por volta das 11:00h e nos apresentamos na entrada, onde nos mostraram todo o funcionamento do local e nossas mesas. Por algum tempo ficamos sentados, discutindo sobre o local, decoração, música e outras coisas sobre a formatura. A música estava animada e já começava a juntar uma galera na pista e decidimos ir dançar, nos divertíamos na pista, quando meu amigo comentou sobre um dos dançarinos da banda, falando que era muito gostoso e etc, então prestei atenção nas dançarinas, apenas uma fazia meu estilo, morena, alta, magra, muito bonita por sinal, mas quem me chamou a atenção foi a loira, que cantou a maior parte das músicas até então, ela tinha algo no olhar, no jeito de dançar, de se mexer no palco, algo que hipnotizava e aquilo muito me chamou a atenção, a partir de então, não consegui deixar de olhar para o palco, houve uma hora em que pensei que ela tivesse percebido meus olhares, por que no meio da música, enquanto ela chamava a galera para bater palmas, ela se virou exactamente onde eu estava e pude sentir aqueles olhos nos meus, foi coisa de segundos, onde ela olhou na minha direção e disse um simples “come on girl”, o tempo de pronunciar essa 3 palavrinhas foi o tempo que tive a atenção do seu olhar. Obviamente, ninguém percebeu e logo pensei que eu é que estava alucinando.
Depois da valsa dos formandos á meia noite, fomos pra pista e só saímos de lá quando não aguentávamos mais pular, a banda continuava animando a festa. Sentamos em nossa mesa e a conversa rolava solta, mas eu estava no pique ainda, comentei com os meninos que iria pegar uma bebida e dar uma volta, eles estavam cansados de mais para ir junto, e lá fui eu. Fui até o bar do outro lado da pista, peguei apenas uma água, pois estava realmente com calor e fiquei ali, do lado do palco, curtindo as música que a banda tocava, então ela começou a cantar uma música do Coldplay e foi quando eu realmente reparei que ela não tinha apenas um jeito que me chamava a atenção, mas também uma voz gostosa de se ouvir, fiquei ali, viajando naquela voz, e na música.


Charlie Brow - Coldplay

I stole a key
Took a car downtown where the lost boys meet
Took a car downtown and took what they offered me
To set me free
I saw the lights go down at the end of the scene
Saw the lights go down and standing in front of me

Oh ooh ooh

In my scarecrow dreams
When they smash my heart into smithereens
Be a bright red rose come bursting the concrete
Be a cartoon heart

Light a fire, light a spark
Light a fire a flame in my heart
We'll run wild
We'll be glowing in the dark

Oooh ooh ooh

We'll be glowing in the dark

A-woo-a-wooooo

All the boys, all the girls, all that matters in the world
All the boys, all the girls, all the madness that occurs
All the highs all the lows, as the room is spinning, Oh!
We'll run wild, we'll be glowing in the dark

Ooooh, ooooh, ooooh

So we'll soar
Luminous and wired
We'll be glowing in the dark

Fui levada para outra dimensão com aquela música sendo cantada em tão bela voz e quando dei por mim a música já havia acabado e ela estava saindo do palco, a banda começaria uma parte onde tocaria funk e axé, e definitivamente um gênero que nunca me agradou é o funk, então fui até o balcão,deixei minha garrafinha de água e estava indo para a mesa, quando um segurança me parou, pedindo para acompanhá-lo, achei estranho e perguntei o por que,ele apenas me disse que estavam me procurando, enfim, acabei seguindo-o e para minha surpresa ele me deixou na porta do camarim, atrás do palco, definitivamente aquele segurança não batia bem da cabeça, quem estaria me procurando ali, loucura, e quando fui dizer que havia algum engano, a porta se abriu e para a minha surpresa, quem apareceu atrás dela foi a mulher de gestos seguros, olhos misteriosos, sorriso largo, pernas torneadas e voz para me fazer viajar fora de mim, minha surpresa foi tão grande que não tive ação alguma, o segurança se foi e ela ficou ali, me olhando, quando cai na real do que estava acontecendo.

_ É... deve haver algum engano - era impossível não ficar nervosa na presença dela -
_ Não, eu pedi para o segurança te trazer aqui, entra.
E eu entrei, obviamente eu não fazia muita coisa se não agir por impulso, aquilo era loucura, o que ela queria afinal, pedir para eu parar de comer-lhe com os olhos, pois ela é hetero, eu estava gelada, nervosa e perdida e ela lá, sorrindo, como se nada estivesse acontecendo.


_ Está tudo bem? Você parecia bastante longe enquanto eu cantava a última música.
_ Pois é, tens uma voz muito bonita, canta muita bem.


Eu precisava me recompor, mostrar o mínimo de dignidade, mas sentia meu colo e rosto pegarem fogo, com certeza estava vermelha, sou uma pessoa muito bem resolvida e comunicativa, mas para algumas coisas, como mulheres, sou um posso inesgotável de timidez.

_ Obrigada, para que tanta vergonha? Eu estava curiosa em te conhecer sabe, desde que chegou que não tiravas os olhos do palco e bem, não pude deixar de notar no quão bonita és.
_ Obrigada... é você também, aliás... linda mesmo.


De onde saiu isso, eu estava perdida, nervosa e sendo tragada por aqueles olhos cor de mel. Ela estava muitíssimo próxima de mim, me olhava no fundo dos olhos e eu me sentia uma garota boba e desprotegida diante daquele olhar, senti quando ela foi chegando mais perto do meu rosto, quando sua mão tocou minha nuca, mordi os lábios de nervoso, um nervoso que deixou de existir e deu lugar a uma sensação de descoberta e sede, senti sua respiração se misturando à minha, eu tinha sede daqueles lábios e meu corpo já não era meu, não me obedecia, na verdade eu sequer conseguia pensar em algo que não fosse aquele toque, aqueles lábios, minha mão foi de encontro eu rosto dela e então o beijo aconteceu, desesperado, faminto, desenfreado, seu corpo se colava ao meu e entre mãos afoitas e bocas famintas fomos nos descobrindo, o gosto, o corpo e eu, me despindo a alma, o coração, quando dei por mim, já estávamos numa cadeira espaçosa, porém o espaço era inútil, nossos corpos ocupavam apenas um lugar, e meu corpo estava em seu colo, como se assim fosse a séculos, o beijo foi parando devagar, a respiração voltando ao normal, os rostos colados, as mãos unidas e o sorriso correspondido, ainda de olhos fechados senti um leve beijo em meus lábios, apenas um encostar de lábios, uma de suas mãos se desfazendo da minha e indo para minhas costas, acariciando o que o vestido não cobria e assim foi, por um tempo indeterminado pelos corações ecelerados.

_ Eu preciso ir...

Um sussurro rouco, em um abraço carinhoso, aquelas palavras demarcavam o fim da magia, o encanto se quebrava ali. Abri meus olhos, mas os dela continuavam fechados, como que tentando nos manter naquele doce momento, mas era tarde de mais e ela tinha obrigações. Minha razão gritou nessa hora, eu devia ir e esquecer, entender que fora apenas uma “ficada”, mas meu coração teimava em me fazer ficar e no meio dessa guerra entre razão e coração, ouvi sua voz serena e ao mesmo tempo nervosa.

_ Preciso ir, mas não quero... Preciso fechar o show, me espera?

E então pude ver seus olhos, com mil promessas e um pedido, apenas um pedido que me punha em alerta, que me fazia ter uma discussão interna, talvez por bobeira, a razão dizia que seria apenas uma boa noite de sexo, o coração mandava me acalmar e me entregar, mas quantas vezes esse mesmo coração se embrenhou em histórias de amor e apenas me trouxe dor, segundos naqueles olhos e já me via perdida novamente.

_ Vou estar por perto quando o show acabar.

E foi tudo que eu pude dizer, um beijo nos lábios mais doces que já provei, um olhar, uma súplica silenciosa por amor, que talvez ela nem visse, ou ignorasse, mas era o que me restava, suplicar para que não me ferisse mais uma vez, e assim me retirei e me atirei no mar de gente que se divertia, alheias a meu momento de felicidade e incertezas.

Fui para a mesa junto dos meus amigos e Henrique pareceu perceber meu diálogo interior.

_ Está tudo?
_ Uhun -  um leve aceno com a cabeça, ainda estava atordoada -
_ Certeza, você sumiu, voltou quieta de mais...
_ Está tudo bem meu querido, depois te conto, com calma... Acho que não volto com vocês, deixo o carro com você.
_ E vai para...?

E nesse momento ouvi a voz que há pouco me fazia enlouquecer, não pude deixar de olhar, ela se vestia com uma roupa de soldadinha, porém em um short minúsculo com meia arrastão, deixando ver aquelas pernas firmes e fortes, como podia ser tão bela.

_ Não acredito Liv, jura? É isso que estou pensando?
_ Isso o que Rique, nem sei em que estás a pensar...
_ Mas, deixe de me enrolar garota... Vi como olhou para a loira boa de cama, e vi como ela olhou para a nossa mesa, não sou cego minha querida.
_Loira boa de cama?

_Sim, hey, acorda, volta pra terra Alice*... Lembra-se de quando estávamos olhando os dançarinos...

__________________________________ Horas antes _______________________________

_ Veja aquele, é gostoso, que bunda é aquela, meu Deus...
_ Deixa de ser tarado Rique - e ria gostoso da sua cara de tarado para os dançarinos -

_ Ah não Liv, vai me dizer que não é gostoso, e você, o que me diz das meninas?
_ Hum, interessantes, mas que me atrai mesmo só a morena, sei lá, faz meu “tipo”.
_ Sim, acredito, e essa inpeção na loira foi?
_ Hahaha, credo, não deixa passar nada.
_ Vai, anda, me fala o que essa cabeça pervertida pensou.
_ É só que, a morena é bonita, mas a loira foi quem me chamou atenção, tem cara de ser boa de cama, é misteriosa e tem uma voz de arrasar.
_ Xiii, já vi tudo.

________________________________ Presente ________________________________


_ Claro... ela é...
_Vixi gata, tá caidinha pela loira, só não se esqueça que é apenas sexo meu bem, não vá se apaixonar.

_ Relaxa, já sou bem grandinha.
_ Sei.

E foi assim que naquele momento, decidi que não só iria esperá-la, como também iria para onde ela quisesse aquela noite. Foi ai também que constatei o perigo me cercando, a única vez que me senti tão entregue a alguém, não teve um final feliz e sim meses de terapia.
O show já acabara, as cortinas se fecharam e agora quem tocava a festa era o DJ, a galera continuava animada e o pessoal da mesa resolveu dançar, fomos para a pista, próximo da entrada para o camarim e ali ficamos dançando a rindo, eu tentava a todo custo não pensar no que aconteceria daqui para frente. Vi a banda inteira se retirando, e percebi que talvez, eu estivesse errada e Henrique certo, ela foi embora e se quer me olhou, estava ocupada conversando com um homem que não fazia parte do grupo de dançarinos.

_ Hey, não faz essa cara de cachorro sem dono gata, é melhor assim...

Mas, ele não teve tempo de continuar o comentário, logo um segurança alto e forte veio ao meu encontro, eu já sabia o que era, e meu coração carente e bobo já se alegrava no peito. Pedi licença ao pessoal e segui o segurança até a área aberta, ela me esperava ao lado de uma árvore.

_ Desculpa a demora, estava resolvendo um problema, vai ficar até tarde aqui?

Mal sabia ela, que eu iria embora agora mesmo, só para poder ficar junto dela novamente.

_ Não sei, o pessoal está animado, mas para mim a festa acabou...

Eu tinha o péssimo hábito de dizer o que vinha na boca quando nervosa e era esse meu maior defeito, como agora, ela não precisava saber que mexia comigo, e eu deixava isso claro demais com meu nervosismo, minha timidez, minhas palavras e meus olhares, mas não pude deixar de notar aquele sorriso de canto, como quem diz “concordo com você”.

_ Que tal sairmos da festa, irmos para um lugar mais calmo, há um hotel aqui perto, tomo um banho e comemos algo, você não comeu nada, deve estar faminta.

Sim, eu estava faminta, mas minha fome não poderia ser saciada com qualquer comida, minha fome era o desejo gritando mais alto que a razão.

_ Claro, vou só pegar minhas coisas e avisar à todos que estou indo.

E foi assim que a deixei ali, ao lado da árvore e andei rápido para dentro do salão, como que por medo dela ir embora.

_ Rique, estou indo, fica com a chave do carro...
_ Ok... Lívia, tenha cuidado.
_ Terei meu amigo, terei.

Voltei e ela ainda estava lá, da mesma maneira de quando a deixei, me sorria feliz e me levou para o seu carro entre olhares e gestos nervosos, de ambas as partes. Eu podia sentir que ela também estava nervosa, mexia no cabelo, brincava com a chave do carro, eu estava deixando o meu nervosismo de lado e dando espaço para um sentimento de alegria, era tão bom saber que eu não era a única nervosa na história, ela não parecia o tipo de pessoa que leva qualquer uma para a cama, era tão bonitinho vê-la naqueles gestos nervosos, que me vi sorrindo por um momento, pensando que poderia ser diferente do que eu estava esperando, sim por que eu já imaginava um romance, mas na verdade esperava o pior, uma boa noite de sexo e adeus, preferia pensar assim, para a decepção ser menor, será que alguém entende?
Olhei para os lado, para ver se havia alguém no estacionamento, mas já estávamos longe dos olhares, eu não me importava que me vissem com uma mulher, mas não sabia se ela importaria-se. Apesar do seu gesto nervoso ser uma graça me fazer sorrir pelo que poderia significar, não poderia deixá-la naquela angústia, segurei sua mão que brincava nervosamente com a chave e a senti fria, suando, na mesma hora ela estancou, talvez tivesse ficado apreensiva com a possibilidade de ser pega com uma mulher, mas não, ela apenas se virou na minha direção, deu um sorrido tenso e com os olhos aflitos me chamou para o abraço, e foi o que fiz, lhe dei um abraço apertado, tentando passar toda a segurança que nem eu mesma tinha.

_ Acho que estou nervosa.
_ Eu também. - confidenciei baixinho, ainda no abraço -

Nos desfizemos do abraço, sem no entanto afastar os corpos, sorrimos pelo nosso nervosismo quase infantil e então fomos ao carro.
Poucos minutos depois, entre conversas triviais e sorrisos sinceros, chegamos em um hotel aconchegante, onde já havia uma reserva e seu nome.

_ Senhorita Lambert, posso ajudá-la com a bagagem.
_ Apenas Clara, Tiago, apenas Clara. E não, não tenho bagagem, apenas peça para levarem um café da manhã reforçado para duas pessoas certo?
_Sim senhor... Desculpe, Clara, seu café estará lá dentro de alguns instantes.
_ Obrigada Tiago, tenha um bom dia!
_ Para a senhora também!

Ela apenas sorriu da mania do funcionário, pelo jeito ela era uma frequentadora assídua do hotel e isso me fez pensar quantas ela já teria levado para lá. Entramos no elevador e durante os minutos que se sucederam até chegar ao 14º andar, fizeram meu nervosismo voltar em dobro, medo, angústia, pensamentos, ela atenta á tudo, percebeu meu nervosismo, segurou minha mão, entrelaçando nossos dedos e sorriu para mim, como quem diz “tá tudo bem”, mas na verdade, eu não sabia que caminho era aquele e sentia que não haveria volta.
Assim que entramos pude constatar que era um quarto imenso, com suíte, uma pequena sala de estar algo que se assemelhava à uma cosinha, porém mais prática e menor. Ela colocou a mochila em uma poltrona, me puxou pelas mãos e me abraçou, assim como eu havia feito há pouco tempo.

_ O que te deixa tão nervosa, hem minha menina?

Eu não saberia responder, simplesmente não havia uma resposta para aquela pergunta, meu nervosismo tinha mil motivos e seria loucura deixar que eles tomassem conta de mim. Sentindo minha tensão cada vez maior, ela me puxou até a beirada da cama, onde sentamos e ela, acariciando-me a face e olhando nos olhos, falou:

_ Sabe, eu também me sinto assim, meio perdida, sem saber o que fazer exatamente, mas querendo estar perto de você. Esse hotel é do meu primo, sempre venho para cá quando estou na cidade, por isso tenho um quarto sempre pronto quando faço show aqui, por isso também, conheço quase todos que trabalham aqui, mas nunca trouxe ninguém aqui, sempre que venho com o grupo todo, ficamos em outro hotel, de um dos patrocinadores. Mas agora é diferente, você é diferente, digo... Entre tanta gente, tantos olhares, o seu me prendeu, me fez perder o foco a noite toda, fez meu coração ficar agitado, como agora... - disse colocando minha mão sobre seu peito.

Pude sentir seu coração acelerado, tal e qual ao meu, pedindo atenção, pedindo cuidados, pedindo pele na pele, calor, amor. O beijo veio naturalmente, dessa vez sem a urgência que nos tomou no camarim, mas com sabor de descoberta, querendo conhecer cada gosto, cada reação, querendo fazer o caminho da alma.
Fomos interrompidas pelo barulho da porta, sinal de que o café estava lá fora, nos esperando, mas afinal, não queríamos nada que não estivesse ali, a nossa fome era a mesma. Ela levantou-se, abriu a porta e empurrou o carrinho para um canto qualquer, pegou-me a mão, nos pusemos de frente, olhos nos olhos e bocas úmidas, sua mão desamarrou o nó do meu vestido, vagarosamente, como quem dá tempo para você dizer que não, mas eu não negaria o que tanto desejávamos, havia uma vontade gritante que me fazia querer mais, muito mais. Meu vestido, foi ao chão assim que o nó foi inteiramente desfeito, deixando-me apenas a pequena calcinha, branca e delicada, e os saltos, que tirei delicadamente, ficando ainda mais baixa que ela, minhas mãos agora a despiam da blusa fina e semi-transparente, e com uma calma que não sei de onde vinha, se livraram do short jeans, deixando a visão mais bela que meus olhos já viram, aquela linda loira, com uma lingerie pequena e escura como a noite, contrastando com a pele branca e suave, os saltos que a deixava ainda mais sexy foram deixados de lado, meus olhos estavam hipnotizados, observando cada detalhe, fui para trás dela, sua cabeça inclinou-se suavemente, tentando ver o que eu faria, me dando espaço pra um beijo molhado naquela nuca de pelinhos loiros, que se arrepiavam com beijos e mordidas, deslizei minhas mão por seus ombros, braços, levando junto a alça da lingerie, subindo pelas costas alvas e fortes, desabotoando aquele pedaço de pano que cobria seus seios de aureolas rosadas e entumecidas pelo desejo, beijei novamente sua nuca, fazendo-a fechar os olhos, peguei em sua mão e fomos como que em transe até o banheiro, lá livrado-nos da única peça que nos restava, e pude então ver seu triângulo com aqueles poucos pelos claros e ela, pode me ver inteiramente despida, de corpo e alma. Entramos no banho sem prestar qualquer atenção em qualquer coisa ao nosso redor, apenas obedecendo o desejo de tocar e ser tocada, de beijar e deixar-se ser beijada, seu lábios percorriam meu pescoço, colo, seios, brincando, mordendo-os e sugando, enquanto sua mão brincava com o outro, seus olhos eram puro desejo, safados,  me desvendavam os segredos do prazer, me tirando gemidos e súplicas, sentia uma de suas mãos descendo, arranhando o ventre, sua boca passou a acompanhar a mão que já percorria minha virilha, provocando, atiçando fogo, me sentia escorrendo desejo e sua boca passava a se aventurar por entre minhas pernas, causando-me arrepios de prazer, mas ela não tinha pressa, ela queria provocar, queria me ver implorando por sua boca em meu ponto de prazer, mas eu queria ver quem cederia primeiro, ela arranhava minhas coxas, panturrilha, lambia a água que escorria por meu corpo, me olhava com cara travessa e abusada, senti suas mão subindo pela lateral do meu corpo, me causando arrepios, e depois descendo, passando as unhas pelas costas, bunda, querendo ver até onde eu a deixaria ir, suas mão passaram a me torturar prazerosamente, uma delas em meu sexo encharcado, e a outra brincando no outro buraquinho, não aguentava mais aquela tortura e via que ela também não, mas eu sempre gostei de extremos, senti seu dedo penetrando-me o sexo quente e molhado, me fazendo gemer e não aguentando de prazer, pedi por mais, com as mãos em seus ombros, as unhas marcando sua pele branca, eu gemia e pedia para ela me dar prazer, pedia por mais, eu queria tudo, queria sua língua em meu sexo, e ela entendeu o pedido e atendeo-o, me fez passar uma de minhas pernas por seu ombro, agora ela podia fazer o que quisesse, eu estava completamente exposta, senti sua boca beijando meu sexo, sugando, mordendo lambendo, enquanto seus dedos me penetravam com força, num ritmo cada vez mais acelerado, não demorou em chegar ao auge do prazer e gozar em sua mão, sentir o corpo mole, mais gostoso ainda foi senti-la chegar ao ecstasy junto comigo, minhas pernas simplesmente deixaram de existir, deslizei para o chão, tendo ela entre minhas pernas e assim permanecemos, abraçadas, recuperando a força que havia nos deixado, os batimentos acelerados voltando ao compasso normal, as respirações entrecortadas tornando-se calmas, até que pudesse sentir minhas pernas novamente, nos levantamos preguiçosamente, mas com sorrisos satisfeitos, peguei o sabonete e comecei a banhá-la, passando minhas mãos ensaboadas pelo seu corpo, sentindo cada arrepio, cada suspiro, era impossível resistir àquela mulher tentadora, minhas mão já percorriam seu corpo procurando seus pontos sensíveis, mas precisávamos sair dali, nos enxaguamos e saímos do chuveiro, agarradas, indo direto para a cama e nossos corpos molhados e quentes se amaram por horas a fio, sucubindo a exaustão quando o sol já se mostrava alto no céu claro.
Acordei horas depois, um tanto quanto perdida, até sentir braços abraçando-me possessivamente pela cintura, e uma respiração tranquila em meu pescoço, sorri com a lembrança daquele dia, havia-mos nos entregado ao prazer absoluto, demos e recebemos prazer em proporções inexplicáveis, fiquei divagando no quanto Clara era linda, delicada, selvagem, arrebatadora, especial. Eu tinha medo do que sentia, mas era tão bom que o medo sentia-se coagido a dar espaço àquele sentimento, mas isso não impedia que eu pensasse no que seria de agora em diante, será que ela acordaria e ainda teríamos algo a nos oferecer, ou será que seria algo como “bom dia, a noite foi ótima, mas preciso ir”, a nossa ligação não tinha explicação, mas ao mesmo tempo era tudo muito louco, rápido de mais, prematuro de mais. Senti seu braço que me abraçava apertar-me contra seu peito e seus lábios em meus ombros, depositando um delicado beijo.

_ Bom dia.

Disse ela simplesmente, com aquela voz um pouco mais rouca pelo despertar, como se esse nosso momento sempre houvesse acontecido. Olhei para aquele rosto sonolento, os cabelos espalhados pelo travesseiro, um sorriso fácil, quase pueril, os olhos brilhantes que me transmitiam calma e carinho. Naquele momento eu percebi que não seria amor de uma noite só, nossa história não acabaria ali, naquela cama de hotel. Sorri de volta, passando a mão por seu rosto, tirando a mecha teimosa que insistia em ficar em seu rosto.

_ Boa tarde... Quase boa noite.

Compartilhamos um sorriso cúmplice, ficamos deitadas por mais um tempo, trocando carícias, beijos e olhares, pedimos o café, cada uma tomou o seu banho de uma vez, e depois de arrumadas, sentamos e tomamos café, em um clima descontraído. Eu me sentia em casa, como eu jamais havia me sentido antes.

_ Preciso avisar o Caio que estou viva, tínhamos uma reunião hoje, que desmarquei prevendo que não acordaria a tempo.

Aquele sorriso safado novamente, era tão gostoso vê-lo, era tão bom ser o motivo dele.

_ E eu preciso ligar para o Rique, meu carro está com ele, e uma hora dessas ele deve pensar que morri.

Ligamos para eles, cada uma resolvendo a sua pendência, usei o telefone do quarto, já que havia esquecido o celular no carro, combinei de pegar o carro com Rique, que ficaria em casa o resto da tarde e noite, disse-lhe que ligaria quando estivesse chegando.
_ Os meninos pediram para fazer a reunião hoje ainda, eles querem aproveitar a semana na praia, se importa se eu for hoje?
_ Eu vou te ver de novo?
_ Eu quero te ver de novo, muitas vezes.

Eu adoro isso nela, o fato dela ser sempre direta, mesmo que por vezes, como agora, me deixe um pouco tímida, não sou acostumada com troca gratuita de afeto e isso às vezes me põem quieta e tímida.

_ Sabe, adoro isso em você.
_ O que?
_ Esse seu jeitinho de menina tímida, não é só “tipo” sabe, é naturalmente seu, dá pra ver nos seus olhos, uma menina tímida e confusa, e uma mulher geniosa, forte, sensual, por isso tão única. Como agora por exemplo, eu sei que você vai vai ficar quieta, me olhar nos olhos, ficar toda vermelhinha e morder o lábio.

Realmente, ela estava certa sobre mim e sabia disso.
Nos beijamos mais uma vez e saímos do hotel, ela me levaria até a casa do Rique, para que eu pegasse meu carro, liguei para ele avisando que chegaria em sua casa dentro de meia hora, ela me deixaria lá e iria direto para a reunião que seria em um local próximo a casa do meu amigo.

_ Então, nos vemos em breve. - ela disse assim que estacionou -
_ Com certeza e Clara... vou... vou sentir saudade. - eu precisava dizer, precisava parar de esconder que queria que desse certo -
_ Eu também minha menina, mas quero te ver logo, antes que a saudade me faça fazer alguma loucura, como te procurar na cidade toda e te sequestrar.

Eu gosto desse senso de humor, da maneira como ela me faz ficar relaxada.

_ Me liga?
_ Claro, só me passa seu número, ainda não tenho.
_Hum, droga... meu celular está no carro e ainda não decorei meu novo número...

Via seus olhos com uma mistura de mágoa e medo e não sabia o por que, mas aquilo me fez querer não sair do seu lado nunca mais.

_ Faz o seguinte, anota aqui e te mando uma mensagem assim que pegar celular.
_ Claro.

E ela anotou seu telefone na minha mão estendida, depositando um beijo em minha mão e olhando nos meus olhos logo depois, suplicando que eu não desaparecesse, só então entendi o medo e a angústia em seus olhos.

_ Fica bem minha linda.

Beijei seus lábios e saí do carro, fechei a porta e dei a volta, abaixando-me ao lado da sua porta.

_ E Clara, você vai ouvir falar de mim, dentro de minutos... Eu não vou te deixar sair da minha vida assim, tão fácil.

Disse isso, dei-lhe mais um beijo rápido e entrei, me sentindo vitoriosa por ter momentaneamente superado o medo de dizer o que sinto, talvez seus olhos tristes tivessem me dado coragem para fazê-los brilhar novamente.
Vi a cara do meu amigo, que me esperava no portão, ela tinha uma expressão embasbacada, chegava a ser engraçada, mas a única coisa que fiz foi entrar correndo, pegar a chave do carro e pegar meu celular.

“Eu disse que não te deixaria sair da minha vida tão fácil.
Espero que a gente se veja logo, por que já estou morrendo de saudade de você, do seu perfume, do seu beijo, do seu toque, seus olhares...


Beijos da sua menina/mulher”

Eu sabia que enquanto ela lia essa mensagem ela sorria, e meu coração sorrio, em um estado de graça e paz que só o amor nos proporciona.



“You Picked Me - A Fine Frenzy

One, two, three
Counting out the signs we see
The tall buildings
Fading in the distance
Only dots on a map
Four, five, six
The two of us a perfect fit
You're all mine, all mine

And all I can say
Is you blow me away

Like an apple on a tree
Hiding out behind the leaves
I was difficult to reach
But you picked me
Like a shell upon a beach
Just another pretty piece
I was difficult to see
But you picked me
Yeah you picked me

So softly
Rain against the windows
And the strong coffee
Warming up my fingers
In this fisherman's house
You got me
Searched the sand
And climbed the tree
And brought me back down

And all I can say
Is you blow me away

Like an apple on a tree
Hiding out behind the leaves
I was difficult to reach
But you picked me
Like a shell upon a beach
Just another pretty piece
I was difficult to see
But you picked me
Yeah you picked me”



FIM.